O MEMORIAL DO IMIGRANTE E AS TRANSCRIÇÕES DE REGISTRO

O Memorial do Imigrante (MI) tornou recentemente possível a pesquisa de certos dados de chegada de imigrantes diretamente no seu site; foi mais um grande passo que auxilia muito os que buscam conhecer a história de seus antepassados imigrantes. Essa vitória pode ser melhor avaliada à luz de uma certa perspectiva histórica. O Memorial luta, há muitos anos, com problemas comuns a entidades governamentais ligadas à cultura em muitos países, e em particular no Brasil.

Eu freqüento o (atual) Memorial desde o tempo da administração pela Secretaria da Promoção Social, antes mesmo da criação do Centro Histórico do Imigrante (1986) – para ser exato, desde 1984, época pré-computador, quando cada pedido de certidão gerava toda uma pesquisa individual, e era possível até ver os livros. Naquela época, quando chovia, pingava água do teto. Cansei de ver baldes enormes espalhados pelo chão, com o pessoal tentando acertá-los no “foco” das goteiras. Vi funcionários praticamente tomando chuva (dentro do próprio imóvel !) correndo para cobrir os livros com lona plástica preta (na época uma relativa novidade)… e às vezes tendo que descobrir uma prateleira para cobrir outra, porque o que havia de lona plástica não era suficiente. Escorria também água pelas paredes, aumentando no assoalho as poças d’água, que esses mesmos funcionários, preocupados e dedicados, tentavam eliminar com rodos. Dói muito no coração dizer isso, e provavelmente é até uma opinião que pode ser contestada (pois supostamente, zelar por esse patrimônio deveria ser uma atividade, digamos, “normal” do Estado), mas, com tudo o que aconteceu naquele imóvel, acho que nós pesquisadores, genealogistas e todos os descendentes dos imigrantes que por ali passaram, temos até uma certa sorte de terem restado livros e outros tipos de material. Naturalmente, ainda não estamos em uma situação perfeita, mas as melhorias em 20 e poucos anos foram consideráveis. Situações de abandono aconteceram também em outros locais. A hospedaria de Ellis Island, em Nova Iorque, esteve literalmente abandonada por décadas, com o teto destruído e até árvores crescendo nos seus corredores. Há alguns anos foi recuperada e hoje é um museu operado em cooperação com uma associação privada – mas, no local, é cobrada entrada, cobrada hora de uso do computador, e cobrada 12 dólares cada fotocópia de folha de registro de chegada. Você pode comprar belas fotos dos navios de imigrantes, mas custam 25 dólares cada uma. Você pode fazer uma contribuição voluntária e o sobrenome do seu ancestral aparecerá numa plaqueta como as milhares que revestem certas paredes do conjunto. O site funciona bem, mas para obter gratuitamente material prático de usar, como lista de bordo, exige-se um bom traquejo; no início, o sistema falhou bastante. De qualquer maneira, o site merece ser visitado e explorado. O primitivo Hotel de Inmigrantes, em Buenos Aires, uma espécie de grande galpão, do final do séc. XIX, foi demolido. O segundo hotel que é de 1911, e de certa maneira lembra o MI, teve diversas instalações acessórias demolidas, mas o prédio principal é hoje um belo Museu. O CEMLA, Centro de Estudios Migratorios Latinoamericanos, entidade ligada a um grupo pastoral, e que administra os registros de chegada a Buenos Aires, tem os dados computadorizados desde o início da década de 1990. Não sei agora, mas há alguns anos atrás, estavam num lugar minúsculo, quase escondido, e eu tive de ficar um tempão na fila para poder consultar as chegadas no único terminal de computador disponível. Agora está na Internet apenas o sobrenome, com um preço a ser pago para a emissão de um certificado, mas este só pode ser encomendado dentro da Argentina – não há informações de como poderíamos fazer isso do Brasil. As dificuldades mencionadas de maneira nenhuma minimizam o valor desses sites que retratam as antigas estruturas de recebimento de imigrantes nos dois países que se comparam ao Brasil em número de imigrantes, em particular italianos. Pelo contrário, valorizam o trabalho dessas organizações e do nosso Memorial. Parte das chegadas dos imigrantes italianos ao Espírito Santo, aos Estados Unidos e à Argentina (exatamente a base da dados do CEMLA) podem ser consultadas no site da Fondazione Giovanni Agnelli. No Brasil existem ainda (conservados) registros de chegada aos portos do Rio de Janeiro (Hospedarias da Ilha das Flores e de Pinheiro, e algumas listas de passageiros), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS), e, no interior, a chegada a Juiz de Fora (MG), mas estes, por enquanto, ainda não estão na Internet. Aqui, cabe lembrar que os registros do nosso Memorial são, na realidade, os registros dos imigrantes que passaram pela então Hospedaria dos Imigrantes; havia imigrantes que chegavam ao porto de Santos e iam diretamente para as fazendas, e portanto não foram registrados na Hospedaria. A transcrição de registros e sua disponibilização, seja em totens, em terminais de computadores acessíveis aos visitantes, ou, muito melhor, pela Internet, é um grande passo, mas traz em si, inevitavelmente, certas limitações. Em todos os museus mencionados acima, os erros em transcrições de sobrenomes e prenomes, de troca de gênero (homem x mulher e vice-versa) são numerosos e desconcertantes, muitas vezes dificultando bastante ou até quase inviabilizando a pesquisa. Dois exemplos: em Ellis Island meus parentes têm registros de entrada, entre outros, com os prenomes Angalo, Guiseppe e Giueseppe. Esses prenomes não existem em italiano, e são fruto, obviamente, de erros cometidos na transcrição. Em agosto de 2002, entreguei pessoalmente à Diretora do Museu a solicitação de diversas correções (absolutamente incontestáveis) a esses prenomes para Angelo e dois Giuseppe. Até agora elas não foram feitas… e acho (ou tenho certeza?) que, pelo menos em função daquele meu pedido de tantos anos atrás, nunca serão. Na Argentina, prováveis parentes meus têm listados os prenomes Jererina, Zanga e Molindo… – sendo os originais, respectivamente, Salvino, Gina e Palmira !!! O que eu quero dizer é que administrar esse tipo de acervo e de prestação de serviço ao público é um trabalho muito, muito difícil, e certamente, nessa área de transcrições de prenomes e sobrenomes, sempre fadado a falhas. Nosso Memorial, por exemplo, recebeu cerca de 70 etnias diferentes; muitas tinham uma língua em comum (por ex. o francês era usado em passaporte de franceses, mas também de belgas e de suíços), mas, mesmo assim, foram dezenas de línguas. Mesmo supondo que aí houvesse um grande quadro de paleógrafos (especialistas em escrita antiga) ou peritos em caligrafia que conhecessem essas dezenas de línguas – o que em si só já é uma enorme dificuldade – sempre restariam casos individuais insolúveis. Muitos pares de nomes como Angela/Angelo, Carmelo/Carmela, Emilio/Emilia, Maria/Mario, Carlo/Carla, podem ter – e de fato muitas vezes têm nos registros de época – a última letra com a “perninha” final bem no meio, entre o “o” manuscrito digamos “normal”, e o “a” também “normal”. Vou adotar o * (asterisco) para simbolizar uma letra de difícil identificação. Se for um capofamiglia Angel* com uma moglie, o Angel* é claramente Angelo. Mas isso implicaria já numa análise de contexto – imagine-se fazer isso para a transcrição de centenas de milhares de nomes. E mais: o que decidir (será Angelo ou Angela?) se for um Angel* solteiro(a), ou um capofamiglia Angel* sem cônjuge? – isto é, um marido/esposa ou viúvo/viúva viajando só com os filhos? Nesses últimos casos, realmente não é possível saber, sem comparar com outros documentos, ou por informações familiares posteriores, se se trata de homem ou mulher. A indicação figlio/figlia, que eventualmente poderia ajudar, é freqüentemente abreviada como “f”, ou f* – e daí caímos no mesmo problema: no f* – esse * é “o” ou “a” – ou seja, é figlio ou figlia? Naturalmente, com sobrenomes, como são muito mais variados que os prenomes, a situação fica ainda mais complicada e sujeita a erros. O Memorial passou, nos últimos meses, por uma transformação total em sua administração. A falta de dinheiro sempre foi crônica, e a administração, com a participação da Associação de Amigos do Memorial do Imigrante, como está ocorrendo desde meados de 2005, talvez seja realmente a mais viável. A dura verdade, porém, é que colocar cultura e história à disposição das pessoas custa, e custa muito. E num país que tem tantos problemas sociais profundos, enormes e crônicos, a opção pelo suporte financeiro à cultura é uma questão muito complexa. No caso do MI, há inúmeras questões, cada uma por si só já bastante delicada, interativamente envolvidas: a conservação de um patrimônio histórico, a responsabilidade pelo bem público, a priorização das providências a serem tomadas, o equilíbrio financeiro da instituição, a cobrança (ou não, ou quanto) dos serviços (ou de quais serviços), etc.. Tudo isso, envolvendo documentos já, de início, cheios de erros, muitas vezes incompletos, sobre – literalmente – milhões de pessoas. Os riscos de novos erros, e de acúmulo de erros, são grandes, e devemos lembrar que esses milhões de imigrantes têm hoje dezenas de milhões de descendentes querendo saber sobre eles. Eu me assusto só de pensar o quanto essa situação é complexa. Para cada um desses aspectos, há inúmeras opiniões e muitas facetas, e os partidários de cada idéia provavelmente terão argumentos que, cada um tomado isoladamente, é válido. A estrutura pública, porém, e cada órgão dentro dela, constituem sistemas. Um sistema pode ser conceituado como um grupo de elementos independentes, inter-relacionados de tal maneira que o conjunto funciona como um todo, mas, ao mesmo tempo, o que ocorre em cada elemento afeta todos os outros. O pessoal da teoria do caos diz coisas do tipo que “o bater das asas de uma borboleta no Japão pode causar um terremoto na América do Sul”. No MI, cada atitude que você toma ou deixa de tomar, e, se for o caso, como você a toma, tem enormes reflexos institucionais, práticos, emocionais, jurídicos, econômicos, etc., em um enorme universo de pessoas e entidades, tanto públicas quanto de cunho privado. Vou tomar alguns exemplo do MI para avaliarmos como essa questão é complexa. Há o registro de chegada de um Stefano Rosssi (assim mesmo, com 3 “s”) – caso óbvio de erro no registro original. Porém, como corrigir isso se – mesmo com esse erro original – essa é a transcrição de um documento histórico? O MI pode alterar um documento histórico? E algum descendente de um, por exemplo, Emilio, que tenha sido listado na transcrição como Emilia, pode solicitar essa correção, levando documentos de seu antepassado? Sempre no MI, o padrão era fazer o índice de imigrantes listando, nessa ordem, sobrenome e prenome. Como fica a situação naqueles casos em que houve erro, na origem, na confecção do índice? Há erros na ordem: Antonio Rizzi está listado no índice na letra A, e Giuseppe Marcon no G. Há outros erros também: como Roberto João está listado no J, como italiano, lembrando que o prenome correto em italiano é Giovanni, e que o “ã” nem sequer existe em italiano. De novo, estamos frente à questão: para fazer a transcrição e colocar os dados nos totens (disponíveis para consulta pessoal no MI) e na Internet, pode-se alterar um documento histórico? E, se sim, até onde iria esse poder de correção? Parece não haver uma solução prática à vista. Se o seu antepassado (ou antepassados) tiveram o nome corretamente anotado, corretamente indexado, e corretamente transcrito para o meu eletrônico, ótimo para você. Se não encontrar a chegada de seus antepassados, não desista – tente procurar por variações no sobrenome, por mais estranhas ou inesperadas que possam parecer. Se achar seu sobrenome, mas o prenome for outro, verifique a possibilidade desse outro prenome ser, por exemplo, o pai do antepassado que você está pesquisando – e você nem sabia que esse pai tinha emigrado também. A persistência é uma qualidade necessária na pesquisa genealógica. Sempre me pergunto, será que os descendentes de Stefano Rossi/Rosssi já localizaram a sua chegada? Eu também, como tanta gente, me emociono muito no MI. Perco a conta do número de vezes que eu chorei de emoção lá dentro. Para grande frustração minha, não conheci nenhum de meus bisavós, nem meu avô paterno que lá chegou com os pais e irmãos em 1889, mas imagino como eles se sentiam, esperançosos e ao mesmo tempo apreensivos. Concluindo, reforço o meu sentimento de que apesar dessas dificuldades inevitáveis nas transcrições, o trabalho realizado no MI é absolutamente precioso. Sugiro a todos que consultem seu site e façam um esforço para visitar o Memorial ao vivo.

Virginio Mantesso Historiador em São Paulo – SP professor em história da imigração e genealogia ítalo-brasileira responsável pela página Imigração italiana contato: curso@imigracaoitaliana.com.br

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Dicas de Pesquisa • Memorial do Imigrante http://www.memorialdoimigrante.sp.gov.br/ •Arquivo Nacional http://www.arquivonacional.gov.br/ • CEMLA – Centro de Estudio Migratorios Latinoamericanos http://www.cemla.com/busqueda.html • Ellis Island http://www.ellisisland.org/ • Fundação Giovanni Agnelli – banco de dados http://213.212.128.168/radici/ie/defaultie.htm •Entrevista com Waldir Robbi – Memorial do Imigrante http://www.bravagentebrasil.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=129

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